terça-feira, 14 de janeiro de 2025


 MARIA CALLAS

Minha vida é ópera, e não há razão na ópera

Pablo Larraín construiu uma trilogia, espécie de tributo a três figuras femininas (seriam heroínas na concepção de alguns??) que tiveram participação determinante na história da humanidade, cada uma a seu jeito, seu universo e seu  raio de atuação: Jackie O. , Spencer (Lady Di) e Maria Callas, esta última que agora chega aos cinemas carregada de incenso e elogios encerra a saga. As duas primeiras têm um bom período de suas biografias roteirizadas, já essa última, apenas um recorte de seus últimos dias de vida, apesar de muito pouco, determinante e preciso para que pudéssemos com esse pouco ter uma mínima noção da Diva que foi. Colaborador de Spencer, Steven Knight optou por um roteiro atípico, logo nos minutos iniciais já somos impactados com o corpo de Callas sendo removido de seu apartamento em Paris, onde morre sozinha e é encontrada pelos serviçais. O filme volta sete dias antes, agora sim, iniciando a narrativa e nos mostrando o que levou ou trágico momento inicial. Impressionante como o mantra “Crepúsculo dos deuses” é comum para alguns dos grandes mitos, no caso de Callas, ter limitação na voz e até mesmo começar a perde-la foi algo determinante para seu abalo psicológico e físico, sobretudo sua vaidade... Pude ver algumas versões teatrais, inclusive a mais antológica delas com Marilia Pêra, que anos depois dirigiu a Silvia Pfeifer no mesmo papel... a tônica é a mesma... Aqui Angelina Jolie nos traz uma Callas altiva, soberba, vaidosa, de humor por vezes ácido, por vezes debochadamente cínico... no entanto uma mulher altiva, sutilmente autoritária, para não parecer pedante, mas ao mesmo tempo frágil e perturbada psico e fisicamente... Já com problemas vocais,  dependente de remédios, ainda assim  confiante e imperturbável, soltando gracejos para quem quer que cruze seu caminho. A diva passeia por Paris abastecida por drogas em sua fase terminal, onde é entrevistada por um repórter (fictício?) que responde por Mandrax, ironicamente o nome de uma de suas medicações. Essa entrevista é o recurso encontrado por Larrin para fazer um flashback de sua vida, aí incluso o encontro com Onassis, seu grande amor (quando ainda casada), suas apresentações e seu declínio. Há em Callas um certo inconformismo com a posição do piano na sala que é mudado de lugar a exaustão ao longo do filme, tarefa de seu fiel escudeiro, o mordomo da casa que, junto a governanta convive com ela em seus últimos dias, quem sabe uma forma sutil de se impor: Ainda estou aqui... É comovente a forma cuidadosa e a preocupação que o mordomo tem para com ela, a certeza da finitude e o incentivo a se tratar, decididamente tudo que Callas dispensava. O elenco está primoroso, assim como as locações, o figurino (impecável) os objetos de cena e a sonoplastia que dispensa comentários (a voz de Angelina é mixada com gravações originais de Callas, um assombro de belas e perfeitas). As produções do Larrin são conhecidas pelo apuro técnico e direção cirúrgica de cenas... Há uma simetria, um dom maior em centralizar e destacar suas musas em cena que tornam seus filmes experiências únicas...  Os planos abertos onde Callas adentra os ambientes  ou caminha peças ruas são de uma beleza singular... Vê-la caminhando ao longo da narrativa num outono nas ruas cobertas por folhas caídas é pura poesia. Angelina Jolie está confortável num papel feito praticamente sob encomenda, além de uma aparência física com Callas que impressiona, sua postura em cena é correta, tocante e verdadeira.... Construiu com respeito e dignidade uma Callas que nos toca e nos emociona sem maneirismos, drama barato e apelações... Seu porte e sua elegância falam por si só remetendo a mulher atordoada pela finitude corroída por um amor toxico, mas ainda assim altiva, centrada, inspirada (suas tiradas ao longo do filme são fenomenais) e sobretudo Diva.   O Onassis do Haluk Bilginer  é outro trunfo do filme, sua atuação é incorrigível e bate um bolão com Jolie num perfeito equilíbrio... Ambos donos de si (“Sou feio mais sou rico e tenho tudo que quero” ... e teve mesmo, inclusive ela ). Há uma cena simples onde Callas entrega o que Onassis teria sido pra ela, quando relata aos serviçais que Onassis aparece pra ela todas as noites... Um recurso provincial do filme:  momentos atuais em cores quentes e solares e p&b para uma espécie de marcação do tempo, as memorias em flashbacks. Um achado que acrescenta muito a narrativa, e torna esse, um dos filmes com uma das mais belas fotografias deste ano.

Nos cinemas a partir de 16.01.2025

Ficha Técnica:

Título: CALLAS

Direção: Pablo Larrai

Roteiro: Steven Knight 

Elenco: Angelina Jolie, Pierfrancesco Favino, Alba Rohrwacher, Haluk Bilginer

 

 

quarta-feira, 8 de janeiro de 2025


 

CHICO BENTO E A GOIABEIRA MARAVIÓSA

 

Tive o privilégio de viver minha adolescência no auge do trabalho do Mauricio de Sousa. O privilegio chegou ao ápice quando pude me corresponder com ele, sim, naquela época (década de 70) não havia celular, internet... A velha carta era usada frequentemente... O Telegrama era a salvação para as urgências... A correspondência com Mauricio era frequente, pontual e, pasmem, Mauricio me enviava desenhos feitos por ele anexados as cartas... Uma maravilha... A espera pelo “gibis” semanais da Turma da Mônica era a melhor parte das brincadeiras, logo, logo os personagens ganharam voos solo Cascão, Cebolinha, Mõnica e CHICO BENTO... O Chico sempre foi meu preferido... Sempre foi um alento de humanidade, de preservação da natureza, da naturalidade no falar... naquela época o politicamente correto não existia, do contrário,  talvez ele não tivesse sobrevivido, e ainda assim sofreu algumas retaliações que, felizmente, não prosperaram...  Chico nasceu sob encomenda de uma cooperativa há sessenta anos, e como todas as criações do Mauricio, emplacou de primeira tamanha a beleza e pureza, características singulares do garotinho da roça de coração grande e fala errada.... Um painel de um universo rural que encontramos no Jeca Tatu do Monteiro Lobato, uma sábia inspiração. Um achado. Colecionando um sucesso atrás do outro, levando toda essa turminha maravilhosa para o cine em live-action, eis que agora é chegada a vez do CHICO Bento, e já não era sem tempo ... A espera valeu apena... Chico chegou poeticamente belo, pertinente e necessário. Produzido pelo midas Daniel Rezende, conta com  roteiro de beleza e simplicidade franciscanas, tem seu mérito numa história simples, mas de conteúdo e mensagem que dialoga perfeitamente com ao valores pregados pelo personagem: amor a natureza, a vida no campo, a liberdade... Dirigido com sensibilidade e delicadeza pelo Fernando Fraiha, a narrativa nos leva as aventuras de Chico, sua turma e sua querida goiabeira que agora corre risco em função da construção de uma via que promete melhorias e fartos ganhos para a comunidade, que sensibilizada compra a ideia... a história ainda encontra uma brechinha para dar uma alfinetada no agronegócio, sem ser didática ou forçada.. Faz parte da história. Para os leitores dos Gibis e os mais atentos, é de uma beleza singular e sabedoria alinhavar a história com passagens, sejam através de manias, citações e até mesmo composição da narrativa, já vistas nos gibis. Uma nostalgia que certamente sensibilizará a todos. Completando os acertos está o protagonista que esbanja talento e carisma. Experiente com as câmeras, o influencer mirim Isaac Amendoim ( o perfil bomba no insta) constrói um Chico Bento que sai do desenho e ganha vida nas telas, um assombro.... Obviamente que a caracterização dá o tom, ajuda muito, mas de nada adiantaria sem o talento precoce desse garoto que encanta a todos, quebra a quarta parede e, narrando ele próprio a história nos brinda com momentos de rara beleza e poesia... O filme ainda conta com uma forcinha da Debora Falabella que faz uma professora Marocas doce e encantadora. Um lançamento de peso para as férias, um alento para a retomada do cinema nacional que hoje encontra-se sob os holofotes com grandes e belas narrativas, bem produzidas, dirigidas e sobretudo, dialogando com uma realidade nacional e pertinente em meio a tanta baboseira americana que antes se configurava como opção aos pequenos. Um avanço! E viva Maurício de Sousa, um garoto que passou dos oitenta com alma jovem e revigorada... Bravo Mauricio, que venham outras narrativas tão encantadoras e necessárias a exemplo dessa.

Em cartaz nos cinemas a partir de 09.01.23

Ficha Técnica:

Título: Chico Bento e a Goiabeira Maraviósa

Direção: Fernando Fraiha

Roteiro: Elena Altheman, Fernando Feaiha, Mauricio de Souza e Raul  Chequer

Elenco: Isaac Amendoim, Anna Júlia, Débora Falebella, entre outros

 

quarta-feira, 1 de janeiro de 2025


 

NOSFERATU

 

NOSFERATU é uma produção centenária, tida como obra prima de 1922, dirigido pelo cineasta expressionista alemão F. W. Murnau, um clássico do terror que, pasmem, foi assim denominado para driblar o pagamento de direitos autorais, uma vez baseado no original DRÁCULA, de Bram Stoker, inclusive a empreitada não vingou uma vez processado pela viúva do Stoker. Murnau fez expressivas alterações nos nomes dos  personagens, locais , etc... Hoje Nosferatu é um clássico, as cópias foram destruidas na época, restando remanescente que hoje remasterizada, ainda bem, nos permitiu acessar a obra, cultuada por cinéfilos de cateirinha, uma inspiração para as versões que vieram a seguir. Eis que agora nos chega a versão do Robert Eggers ( A Bruxa, O Farol, Homem do Norte) , que há muito acalentava esse sonho. Vejo nessa trajetória uma espécie de preparo para encarar a tarefa árdua, a grande responsabilidade de lançar mais uma versão deste clássico que encanta gerações... Suas produções sáo gradiosas, bem acabadas e carregadas  de personalidade, não a toa faz parte do grupo ame ou odeie... Os extremos...

A adaptação do clássico do terror, é um conto gótico sobre a obsessão do vampiro por uma mulher que sucumbe aos seus desejos. Passada nos anos de 1800, na Alemanha, a narrativa nos fala da busca do corretor de imóveis por uma residência para o conde Orlok . O vendedor Thomas Hutter (Nicholas Hoult) fica responsável por conduzir os negócios de Orlok . Alertado pela mulher, que passa noites de tormenta, na ausência do marido, sendo constantemente perturbada em seus sonhos...

A versão do Eggers não foge as comparações, o que, do ponto de vista deste que aqui escreve, são descabidas.... Cada versão possui seu mérito, seu ponto de vista, seu adicional.... Não se trata de copiar nada, apenas passar uma versão baseada na sua visão, no seu feeling.  Polêmicas à parte, essa versão possui um apelo visual diferenciado, uma fotografia basicamente em preto e branco, onde os momentos de maior tensão acontecem numa penumbra num jogo de sombras contrapondo a momentos outros onde as cores explodem, fazendo dobradinha numa paleta de cores quentes, amareladas, como se essa paleta diversa norteasse o peso de cada momento/ação...  O Orlok custa a aparecer, inclusive um recurso usado até na divulgação através do trailer, a imagem foi poupada para causar maior impacto. Um dos acertos... Sua aparição é um show a parte e vale a espera...O filme é uma verdadeira aula de luz e sombras, uma sonoplastia espetacular, tudo bem pensado e harmonizado.... Uma atmosfera bem elaborada e equilibrada que cumpre a função de assustar e surpreender.... Um achado. O elenco é super afiado, a Lily-Rose Depp (cria do Johnny Deep) dá um show, trabalho de corpo incorrigível, nesta versão sai do lugar comum de passiva e surpreende, bate um bolão com o Nicholas Hoult, que faz um Thomas Hutter, que está bem como marido atormentado... Bill Skarsgard faz um Orlok que já entrou para a história, aqui movido a desejo (diferente do original) está praticamente irreconhecível ... Willem Dafoe dá um show nas poucas aparições, mas nelas rouba a cena, faz direitinho o dever de casa. No conjunto NOSFERATU se firma como um dos grandes filmes do ano, sua cenografia é perfeita, os elementos de cena contam com louvor a história, inclusive para os iniciados, remetendo a elementos folclóricos das tradições na Transilvânia.... É um filme para se ver no escuro do cinema, tamanha beleza e cuidado na produção... é preciso que degustemos a maravilhosa e inspirada trilha sonora, a beleza do figurino e, volto a destacar, a fotografia na tela grande.

Em cartaz nos cinemas a partir de 2 de janeiro.

Ficha Técnica:

Título: NOSFERATU

Direção: Robert Eggers

Roteiro: Robert Eggers

Elenco:   Nicholas Hoult, Lily-Rose Depp, Willem Dafoe, Bill Skarsgard