quarta-feira, 10 de janeiro de 2024


OS REJEITADOS

 

Todo ano a indústria produz uma espécie de azarão que é lançado sem maiores pretensões, começa a ser falado aqui e ali a boca miúda, e de repente cai no gosto popular, começa a ganhar prêmios e torna-se uma revelação... Eis a trajetória de OS REJEITADOS , que acabou de sair do Globo de Ouro com duas premiações de peso: Melhor ator comédia/musical e melhor atriz coadjuvante comédia/musical. Um feito para uma pequena produção... Com um roteiro de simplicidade franciscana, onde algumas questões nem tão simples assim são sutilmente abordadas, o filme nos pega pelo coração... Poderia ser um típico filme do natal, a partir das férias numa escola em função dos feriados do natal e ano novo, professor velho e estilo caixas não é bem visto pelos alunos, nem tão pouco pela diretoria é designado para tomar conta de alunos que, em função de problemas diversos não passarão natal com as respectivas famílias, continuando portanto no internato... com ele, a cozinheira do refeitório que acabara de perde seu único filho na guerra, Está montado o tripé de uma narrativa que aborda a rejeição, o luto, a solidão e, sobretudo,  a ausência de uma vida verdadeira e compartilhada... Nesta inusitada situação, três alunos conseguem voltar pra casa, ficando apenas o nerd inteligente, mas rebelde, trocado no natal pelo novo namorado da mãe. A princípio a narrativa nos remete a CLUBE DOS CINCO (Quem não lembra?), na sua primeira meia hora dá um salto ganhando contornos próprios e mostrado a realidade dos três pequenos grandes personagens: O professor rejeitado e seus traumas ao longo da vida, o garoto e sua crise existencial e a cozinheira enlutada...Esse caldo daria o maior drama rasgado não fosse a expertise do diretor Alexander Payne (que nos deu Sideways, diga-se de passagem com o mesmo ator, o ótimo Paul Giamatti) que com leveza e poesia intercala momentos de rara contemplação e beleza com outros de um humor sutil e inteligente. É o equilíbrio necessário para boa e crescente narrativa do filme. As atuações são excelentes, vide as premiações justas e pontuais... O garoto escolhido, Dominic Sessa encontrado de fato em um internato, uma cara nova talentosa que promete. Nos brinda com grandes momentos e possui um potencial dramático pouco visto em garotos de sua idade, uma promessa. A atuação do Paul nos encanta em cada fala de seu texto, suas tiradas são de uma inteligência e ironia que são de fato o ponto alto do roteiro e por consequência da narrativa. Da’Vine Joy Randoph nos brinda com uma cozinheira sofrida, angustiada, mas nem por isso menos irônica e ousada, como vemos os três em seus bons momento batem um bolão. Emoldurada por uma sonoplastia muito bacana dos anos 70,  OS REJEITADOS é de uma nostalgia a toda prova, um fazer cinema meio que artesanal, com poesia, alma e sobretudo com amor, muito amor ao cinema... Um descanso para nós passarmos duas horas embalados por uma narrativa desprovida de celulares e toda a parafernália digital.. Encontros e desencontros de vidas que se olham nos olhos, dividem espaços, choram. Riem e principalmente VIVEM. Para os amantes do bom cinema é a pedida obrigatória!

Ficha Técnica:

Título: OS REJEITADOS

Direção: Alexander Payne

Elenco: Paul Giamatti. Dominic Sessa, Da’Vine Joy Randoph, entre outros

Estreia: Dia 11 nos cinemas

 

quinta-feira, 21 de dezembro de 2023


 

AQUAMAN


Pense em uma vertente a ser elaborada numa película para atrair a atenção do espectador (e o igualmente expectador,), em AQUAMAN você vai certamente encontrar … as piadas (datadas e forçadas), um drama familiar, um dilema entre irmãos, muita porrada, muito efeito(alguns de gosto duvidoso ), e está fornada a geleia geral cujo título Reino Perdido a gente procura e não acha … pra complicar mexe com um tema sério e pontual :aquecimento Global … A sensação que se tem é que ali se costurou uma colcha de retalhos muito mal costurada … Um roteiro amarrado às pressas para causar … Pai de família e com filho pequeno , o roteiro põe AQUAMAN num núcleo mortal  familiar( a discussão/citação da paternidade solo está lá) numa tentativa de dar-lhe um tom dramático e de conteúdo (quem não lembra de Velozes e Furiosos, que lançou mão da mesma prerrogativa )… Agora no lar é provocado às pressas para um confronto final com Arraia Negra sedento por vingança e um reencontro para aparar as arestas e selar a paz com o irmão … Seria um drama ? Claro que não, as premissas aqui são esquecidas e numa profusão de efeitos (a princípio até espetaculares, mas que se perdem ao longo da narrativa, fruto de uma clara preocupação orçamentária). As atuações não saem do normal Momoa as vezes desliza quando lhe impõem falas cujo objetivo seria divertir mas acaba por constranger… pior que não ter piada é a piada sem graça … Em meio a tudo isso aguardamos o tal reino perdido que parece de fato perdido e não o encontramos … Fechando o ciclo a produção (ainda que a toque de caixa e com os remendos visíveis aos mais atentos ) entrega um filme irregular e, sobretudo pretensioso … Triste fim sem os devidos méritos que poderia ter para uma figura emblemática e com potencial para voos, ops.  mergulhos outros maiores que certamente um
Bom roteiro lhe poderia impulsionar

Ficha Técnica:

Título: AQUAMAN

Direção: James Wan

Roteiro:David Leslie Johnson-McGoldrick,  James Wan e outros

Elenco: Jason Mamoa, Nicole Kidman, Patrick Wilson, Dolph Lundgren, Djimon Hounsou, entre outros


quarta-feira, 20 de dezembro de 2023


 

PRISCILLA

Não foi fácil para Sofia Coppola, reconhecidamente, um dos grandes talentos femininos na direção, tocar o projeto Priscilla. Película baseada no livro Elvis and Me, versão de Priscilla Presley para conturbada e abusiva relação com o ídolo. Ano passado tivemos o ELVIS do Baz Luhrmann com o Austin Butler que praticamente incorporou Elvis e encantou o mundo. Não cabe aqui comparações uma vez que cada nos mostra lados distintos de uma relação que ainda guarda seus mistérios e dúvidas.  Em PRISCILLA, Sofia nos mostra o encontro e a conturbada e abusiva relação que nos surpreende quando nos traz a luz um Elvis bastante diferente daquele que nos acostumamos a ver sob as luzes da ribalta. Quando se conheceram Priscila tinha 14 anos de idade enquanto Elvis 24. Ambos se encontravam na Alemanha e Priscila uma jovem tímida, meio que assustada e longe das amigas em virtude da mudança para Alemanha acompanhando a mãe e  o padrasto militar. O universo das mulheres solitárias, sofridas e sem voz há muito já rondava os projetos de Sofia, e Priscilla guarda suas similaridades, levando-se em conta suas devidas proporções, claro.  A narrativa é centrada completamente em Priscila, que aqui nos dá sua versão dos fatos. Após se conhecerem, Elvis na maratona de gravações de películas cinematográficas e shows, a timidez e o recatado modo de se comportar encantam o ídolo que a partir daí passa a viver uma vida dupla: As aventuras em meio aos shows e gravações regadas a affair com grandes figuras femininas da época, e uma espécie de lado B ao lado de Priscila que passa a viver com ele numa elaborada versão de contos de fadas até o casamento, frise-se aqui; Priscila se manteve virgem até o casamento, numa espécie de imposição do astro que em meio a tentativas dela sempre se recusava alertando-a que ainda não era hora, mantendo assim uma espécie de pacto velado com sua família. Priscilla tornou-se uma espécie de pássaro engaiolado que vivia a sombra do ídolo, numa mansão sob o controle de sua equipe e de seu rígido controle, a saber, que roupa usar, como se comportar, que cor do cabelo adotar entre outras determinações. Já mergulhado no universo de drogas analgésicas, a relação beira uma rotina espartana deixando margem a vários questionamentos: Seria um projeto? Numa relação tóxica, Priscilla aguentou até os vinte e sete anos quando arrumou as malas, apanhou a filha e saiu da mansão para nunca mais voltar.  Não li o romance que Sofia se baseou para de lá tirar o roteiro, portanto, a questão de adaptação passa longe de minhas percepções, Priscilla no entanto é uma narrativa melancólica, sombria, onde até a própria paleta de cores usada dialoga com a situação explicitada na tela, é de um marrom  por vezes acinzentado e escurecido, onde na maioria das vezes o rosto do Elvis encontra-se numa penumbra claramente intencional, atitude assertiva, uma vez que o protagonismo ali agora é da Priscilla. Ao contrário do Elvis  que vimos ano passado, seu lado B aqui mostrado com rara sensibilidade e cuidado pela Sofia é atormentado, algumas vezes violento e o tempo todo tentando nos passar um comportamento apaixonado, sensação que a película não chega a determinar. Um dos pedidos de Pricilla a atriz que magistralmente a representou foi que deixasse óbvio que existia amor. Talvez da parte dela em maior intensidade.

A atuação dos atores é convincente, Cailee Spaeny nos brinda com uma Priscilla sob medida e surpreende entrando desde já na galeria das grandes performances. Driblou e evitou as armadilhas do falso e caricato. Já o Jacob Elordi também fez uma boa lição de casa, afinal, depois da exuberante atuação do Butler (no Elvis), o risco das inevitáveis comparações seria uma grande armadilha, ainda que ambos estejam em abordagens completamente distintas, aqui o Elvis intimista e nos bastidores tem outra pegada. A produção é assinada pela própria Priscilla Presley, o que pode gerar uma suposta narrativa biográfica “chapa branca”, que inclusive não foi bem aceita pela única filha do casal. Lisa (falecida recentemente) que inclusive vetou a utilização das músicas do Elvis, era conta o projeto e alegou o desejo de velariza-lo, o que de fato não aconteceu, afinal tira-lo do protagonismo e inseri-lo no universo narrado por Priscilla não teria necessariamente esse viés. Ver Priscilla é um exercício, uma experiência singular onde o talento e a sensibilidade da Sofia é, mais uma vez ratificada. As tomadas iniciais, onde os objetos são mostrados, são de um lirismo exemplar. A reconstituição de época beira a perfeição, assim como o cuidado em não cair no drama exagerado é outro exemplo de que seu desejo foi mostrar os fatos, a versão de uma mulher sufocada e controlada, os bastidores de uma vida regada a glamour e exuberância, que nem sempre nos reserva um final feliz.

Sofia Coppola se firma mais uma vez como uma diretora de raro apuro técnico e detalhista aliado a uma extrema sensibilidade ao adentrar mais uma vez o universo feminino, sutilmente desconstruindo o mito Elvis Presley.  

Estreia nos cinemas em janeiro.

Ficha Técnica:

Título: Priscilla

Direção: Sofia Coppola

Roteiro Adaptado: Sofia Coppola

Elenco: Cailee Spaeny, Jacob Elordi, entre outros