quinta-feira, 22 de fevereiro de 2024


 

O MENINO E A GARÇA

 

O grande diretor japonês, fundador do studio Ghibli, do alto dos seus 83 anos anunciou aposentadoria, mas nos brinda agora com o primor que é a animação que é O MENINO E A GARÇA, animação vencedora do Globo de Oura e favorita ao Oscar..  O histórico do Hayao Miyazaki, que já nos deu  as pérolas: A Viagem de Chihiro e Meu amigo Totoro é de grandes e poéticos trabalhos, cujo traço e pessoalidades marcantes e diferenciadas, encantam adultos e crianças... Com esse novo trabalho não é diferente, inspirado no livro Como Vocês Vivem, as vezes temos a impressão que de fato, se trata de uma despedida, um aceno numa história com fortes traços biográficos, e como de hábito, muitas das percepções que já viu e viveu... A saga do garotinho e Garça que é uma leitura do amadurecimento sem deixar de lado a questão da relação homem/natureza é de uma poética singular  e de um discurso velado, pertinente e necessário...  A história que se inicia durante a segunda guerra mundial, quando o garotinho perde a mãe, a história narra o encontro com a garça e a busca (promessa da garça) pelo reencontro com mãe... E ai a fantasia corre solta com personagens e situações inusitadas... É uma animação relativamente longa (para os padrões da crianças e em tempos velozes), mas cumpre a premissa contemplativa e bela.  O traço é um espetáculo a parte, como sempre, com imagens de impacto. Cenários deslumbrantes emoldurados por trilha sonora arrebatadora. Falar muito dos méritos dessa maravilha é tirar um pouco do mérito que é com ela se surpreender.... Uma viagem que pais e filhos com certeza farão e se deslumbrarão!

Em cartaz nos cinemas

Ficha Técnica:

Título: O Menino e a Garça

Direção : Hayao Miyazaki

Gênero: Animação

 

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2024


BOB MARLEY : ONE LOVE

 

BOB MARLEY: One Love é um daqueles filmes que nos tocam fundo. E tocar fundo é um dos méritos, ainda que não sejamos fãs de carteirinha ou admiradores de sua obra e trajetória … Optando por um roteiro enxuto com direito a flashback na medida certa e pontuando situações que lhe foram muito caras ou lhe legaram marcas profundas, com sensibilidade e poesia nos mostram os percalços e as glórias que nortearam uma vida de perdas, dúvidas e sobretudo busca de identidade e lugar no mundo, isso tudo focando ne década de 80, três ou quatro anos em meio ao recurso do flashback (o tom quente e estourado repetido à exaustão poderia ser evitado ou na pior das hipóteses reduzido...) … Logo no início uma frase o define e ao mesmo tempo o apequena, quando lhe rotula como “humilde”… partindo do princípio equivocado que humildade se limita a parcos recursos, a citação o faz menor do que o gigante que ele foi … Além de pobre (de recursos materiais ) era sim, um sujeito humilde … e aí reside sua grandeza … Pontuado por canções e a relação conflituosa com a Rita, sua esposa e companheira de vida e palco, vemos um Bob em conflito e sempre contrito e questionador … Sua preocupação com o mundo e em especial com a missão de selar a paz na Jamaica são pontos cruciais do filme (seu  sonho era o grande show na Jamaica) … Estão lá as grandes turnês, a relação amistosa e fraterna com os produtores, a criação e concepção de Exodus, o álbum emblematico e a sutil resistência a se portar como  produto a ser consumido e rezar na cartilha do conveniente  marketing que vende. Uma lição.
É um incógnita sua relação com a Rita … parceiros de rara sintonia, não vemos no entanto um homem apaixonado … não há um só momento de verdadeiro e arrebatador romantismo … Momentos de impasses, dor e principalmente de muito conflito… Rita sempre lá ao seu lado … Bonita sua relação com os filhos, seu amor pelo futebol … há inclusive uma citação muito bem humorada envolvendo o Pelé … lembro que esteve no Brasil e participou dos famosos  jogos com o Chico (Buarque ). A direção é acertada, apesar de acelerada (é tudo muito rápido e pincelado, não há tempo de maior aprofundamento) e firme contando com um elenco espetacular, a começar pelo que nos brinda com um Bob bem construído e empático … Uma verdadeira encarnação, vide seu gestual. Suas cenas nos palcos são impressionantes … fez o dever de casa com afinco. Ator de grandes recursos, beleza de rara e cativante aura,   Kingsley Bem Adir é um dos achados do filme que, além de bela fotografia e montagem exemplar ainda equilibra com sabedoria a narrativa com as várias inserções musicais sem cair no óbvio ou na fórmula fácil … cada canção tem seu momento fazendo um link direto com as situações vividas e momentos em que foram criadas … Não há necessidade de ser profundo conhecedor de sua vida e sua obra, nem tão pouco ser amante do reggae  para embarcar com facilidade na viagem de um ser de brilho único que nos deixou tão prematuramente …  Uma tendência recente (vide as últimas cinebiografias) é a velha tendência a pender por ser uma narrativa chapa preta ou chapa branca, como deve ser esse caso, uma vez produzida pelos familiares de Bob, Rita sua esposa e Ziggy o filho, fatalmente a narrativa fica à mercê de uma certa tendência a amenizar situações não tão aprazíveis... A construção do Bob da tela, vivido pelo Kingsley  é de um carisma espetacular, uma beleza que contagia o que de certa forma bate de frente com um Bob real não tão carismático assim, fato que fica comprovado com as cenas reais que vemos ao final. Os mais atentos perceberão uma diferença gritante... O que não invalida o trabalho do filme enquanto tributo, afinal sua obra, sua trajetória e sua visão de mundo estão lá, bem impressos e bem articulados, seja a narrativa chapa branca ou não... vale adentrar no universo desse ser de luz, Robert Nesta Marley OM, mais conhecido como Bob Marley, que tanto pregou o amor, a paz e a união … sem demagogia fez da música sua vida … e, ainda que curta, nos deixou um legado espetacular de rara e brilhante musicalidade…

Em cartaz nos cinemas em pré-estreia.

Ficha Técnica:

Titulo: BOB MARLEY: One Love

Direção: Reinaldo Marcus Green

Roteiro: Frank E. Flowers  Terence Winter

Elenco: Kingsley Ben Adir, Jesse Cilio, Lashana Lynch, entre outros

 

 

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2024


 

O MAL QUE NOS HABITA

É uma produção Argentina que, nos últimos anos nos habituamos a ser surpreendidos, afinal a produção Argentina tem nos brindado com pequenas pérolas, muitas surpresas … Com esse terror foi diferente, a premissa da possessão é aqui desenvolvida com um misto de alguns acertos e muitos erros … A narrativa nos fala de um lugarejo onde algumas pessoas começam a apresentar sinais de possessão e o foco é centrado numa família, cujo pai, separado, luta para salvar a família do risco de uma possível possessão … algo de individualista e egoísta paira no ar ...o filme tem um aspecto meio “trash”, e capitaneado pela boa direção de Demián Rugna  e atuações primorosas( é perceptível o esforço dos atores para salvar os deslizes e desacertos do roteiro) se não alça o posto de obra prima ao menos não promete o que não  pode cumprir … ancorados em bons momentos que nos remetem a tempos áureos dos grandes filmes de terror tem efeitos especiais medianos, uma trilha sonora que não decepciona e uma mão pesada que não perdoa… não poupa nem as crianças, aliás é com elas uma das cenas mais chocantes …  ele beira o escatológico, para ser um pouco elegante, fugindo de uma tendência atual onde o medo e o susto saem do lugar de conforto produzido pelas imagens, centrando fogo mais na suposição e expectativa que a cena crua tão comum (como aqui, onde vísceras são a bola da vez). É uma narrativa desconfortável. Impossível não fazer uma velada analogia, onde um paralelo do filme com a atual situação política que a Argentina está mergulhada é facilmente perceptível pelos mais atentos …. Aqui os moradores sabem que o poder público pouco ou nada estão a fazer para protegê-los … é um filme que ganhou notoriedade pelo boca a boca e, nestes casos, frequentemente ganham holofotes nem sempre pelo merecimento … É de fato para estômagos fortes…

Em cartaz nos cinemas.

Ficha Técnica:

Título: O MAL QUE NOS NABITA

Direção: Demián Rugna

Roteiro:  Demián Rugna

Elenco: Emilio Vodanovich, Paula Rubinsztein, Cleo Diaz, entre outros